21.4.08


Recomeçar na Companhia do Cristo

Iniciada a quinta semana do período pascal, aproveito esse espaço para partilhar uma reflexão baseada nas recentes passagens das missas dominicais e em nossa caminhada atual.

Há dois domingos, tivemos a oportunidade de refletir sobre o trecho bíblico conhecido como a “passagem dos discípulos de Emaús”. Nessa passagem (Lucas 24, 13-35), dois seguidores de Cristo retornam ao lar desolados após a crucificação. Rumando à Emaús, são acompanhados por um homem que os indaga sobre o motivo da expressão casmurra que portavam.

Os discípulos revelam a tristeza pela morte daquele que parecia ser o Messias. A Cruz havia findado a crença desses dois homens. O homem acompanhante, mediante a resposta dos discípulos de Emaús, lhes diz então: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não deveria sofrer tudo isso para entrar na sua glória?”.

O acompanhante era o próprio Jesus Cristo ressuscitado. Porém, os originais de Emaús não o reconheceram... Após dirigir-se com as citadas palavras duras e tratar de diversas passagens da Escritura, Jesus age de um modo singular. Conforme redação do evangelista São Lucas, “quando chegaram perto do povoado onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante”. Sim! Jesus fingiu que iria continuar a sua caminhada, independentemente dos homens de Emaús, apesar de não ser a sua intenção abandoná-los.

Essa imagem é muito interessante. Ao deter-me nesse trecho, após participar de duas missas dominicais seguidas, lembrei-me dos crismandos que receberão o sacramento do Crisma dentro de algumas semanas. Lembrei-me da reta final do meu curso de crisma. Percebi que esse período se assemelhava com a situação vivida pelos discípulos naquela cena.

A casa estava chegando perto e Jesus iria seguir adiante. O que os discípulos iriam fazer? Deixá-lo ir?

Frente a essa situação, os discípulos insistiram com Jesus, dizendo: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!”. Mesmo sem saber quem era aquele homem ao certo, os discípulos de Emaús o acolheram em sua casa, local de descanso e de vida familiar. Acolheram o Amor, apesar do cansaço.

Quando esboço um paralelo entre os discípulos do Evangelho e os crismando, me refiro à situação de escolher o que dizer a Jesus. Podemos deixá-lo ir, dizendo “não” à proposta de Amor que Deus nos faz constantemente, ou podemos dizer “fica comigo, Senhor”. O crismando, após vivenciar um ano litúrgico inteiro dentro da comunidade paroquial, é convidado a dizer “sim” ao chamado de ser rosto de Cristo para o mundo. Para essa missão, precisa perceber a necessidade de sempre pedir para Cristo ficar ao seu lado, residir na sua casa, se fazer presente em todos os momentos.

Como é essencial para todos nós, caminhantes na estrada da vida, notar a importância de sempre pedir “fica conosco, Senhor!”. Sem esse propósito, não há Igreja. É nossa missão buscar uma maior aproximação com as coisas de Deus; aspirar as coisas do Alto.

***

Na missa desse domingo, o Evangelho iniciou com a seguinte mensagem: “Não fique perturbado o vosso coração”.

A reflexão conduzida nos indicou que o mundo nos submete a situações desagradáveis, a problemas que são criados, a mentiras, desilusões e traições.

Por fim, tive a graça de cantar em ação de graças, a música “Recomeçar”, que reitera ser Cristo o Caminho, a Verdade e a Vida. Em suma, a missa conseguiu sintetizar perfeitamente o atual momento de nossas vidas. Estamos em festa pascal, mas as tribulações diárias nos impedem de trilhar o caminho, vivenciar a verdade divina e viver intensamente.

Por meio dessa singela mensagem, espero que o mundo seja um local cada vez mais harmônico e em paz, onde o Amor possa reinar e as chagas possam ser tratadas por meio do carinho materno de nossa Mãe. Que Cristo possa ser sempre clamado por nós, a fim de que nos lembremos do seu amor fiel, capaz de ficar conosco, apesar de nossas faltas.

Rezando por corações restaurados e pelo recomeço santo, nos moldes da caridade cristã,

Abraços e PAZ DE CRISTO.
Gus
Recomeçar
Recomeçar é de novo buscar o caminho que me leva a salvação
Recomeçar é novamente acreditar
E o Senhor Deus há de me livrar
De todas as coisas que me fazem voltar atrás
Me dando uma nova vida, criando em mim um novo ser
Senhor eu sei que és a vida, já o posso sentir
Posso ver que tu me queres uma criatura nova
E pra sempre viver, e pra sempre viver
E para sempre viver somente em ti.

8.2.08




Amigos,
Aproveito esse espaço para partilhar um trecho lido recentemente. Nesse texto, há a descrição rápida, clara e rica dos pensamentos que nos levam a falta de amor e de apego à vida. Destaque em negrito alguns pontos que achei de maior relevência na leitura.
Abraços e PAZ DE CRISTO.

"Mas por que será que muitas vezes escolhemos o caminho da morte?
* Em primeiro lugar, escolhemos o caminho da morte porque não nos abrimos integralmente para a realidade. Reduzimos o real apenas a seus aspectos mais imediatos, que podem ser explicados pela ciência e dominados pela técnica. Eliminamos a pergunta sobre o sentido das coisas e dos acontecimentos, deixando sem resposta as perguntas sobre o amar e o sofrer, o bem e o mal. Passamos a acreditar que a ciência e a técnica podem solucionar os problemas, sem a necessidade de compromisso ético.
* Essa limitação de nossa razão nos impede de compreender o que é verdadeiramente o amor. Nós o reduzimos à simples realização de nosso desejo e posse do outro, sem perceber que a realização plena do amor acontece quando nos doamos ao outro, como nos lembra Bento XVI na encíclica Deus Caritas Est.
* Por fim, essa razão limitada e esse amor desnorteado não são capazes de perceber a sacralidade da vida humana e a dignidade da pessoa. A vida cotidiana se amesquinha, as pessoas passam a ser usadas e instrumentalizadas, permitindo toda a sorte de ataques àqueles que são mais fracos e indefesos."
(N. 9 do Texto Base da Campanha da Fraternidade 2008)

8.1.08

Brasília - Momento de reflexão

Amigos,
Encontro-me no Distrito Federal, onde passarei os demais dias do mês de janeiro.

Como bom turista e católico, participei da missa dominical na Catedral de Brasília (aquela famosa!). Foi muito legal... Como demonstrado na foto acima, a claridade existente no interior da igreja impresiona. A hóstia consagrada, ao ser consagrada pelo padre durante a missa, sumiu em meio à claridade. Demais! Muito lindo... (Obs: A foto foi tirada por mim. Ficou profissional.)

Além das maravilhas arquitetônicas/espirituais que tenho presenciado, posso partilhar um momento cultural muito propício para o início do ano. Estava caminhando no domingo de manhã por Brasília quando resolvi dar uma passada no memorial ao JK.
Foi assim que me deparei com a seguinte frase do Juscelino Kubitschek, fotografada abaixo. Ela serve de motivação para pensamentos melhores nesse novo ano.


Por fim, gostaria de deixar como reflexão uma pequena passagem da I Carta de São João, constante na liturgia de hoje, dia 8 de janeiro de 2007.

"Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados." (I João 4, 7-10)

Aproveito para dar graças a Deus por todos os aniversariantes do mês e agradecer por todos que estão rezando e me ajudando enquanto estou longe.

Abraços e PAZ DE CRISTO.





26.12.07


O Natal da Esperança


Amigos,

Feliz Natal!

Animado com a alegria do Natal, compartilho com vocês um trecho da Carta Encíclica "Spe Salvi". Esse texto do nosso Santo Padre Bento XVI trata da esperança.

Saibamos aproveitar todos os sinais de Deus nos dá. Dessa forma, podemos viver uma vida de Paz, mais alegre e feliz.
Abraços e PAZ DE CRISTO


"Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se torna vivível também o presente.

Sendo assim, podemos agora dizer: o cristianismo não era apenas uma "boa nova", ou seja, uma comunicação de conteúdos até então ignorados. Em linguagem atual, dir-se-ia: a mensagem cristã não era só "informativa", mas "performativa".
Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera fatos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova."
(Cap. 2, Carta Encíclica Spe Salvi, Papa Bento XVI)



18.12.07


31.10.07


A Importância da Oração


Amigos,

Mantendo o compromisso de publicar nesse espaço virtual pensamento e reflexões para o aproveitamento de todos na caminhada pessoal e na vida comunitária, segue abaixo mais um trecho do livro Transfiguração do Inácio Larrañaga.

Por meio das palavras desse sábio religioso, espero que todos possam refletir sobre a importância de Deus em nossas vidas e das formas que temos para não deixar esse Amor “morrer” em nossos corações.

Conforme prometido no Círculo Bíblico Deus Conosco do último sábado.
Abraços e PAZ

“É um círculo vicioso.
Quanto menos se reza, menos vontade se tem de rezar.
Quanto menos vontade de rezar, menos se reza.
Quanto menos se reza, Deus começa a afastar-se.
Não que Deus se afaste, mas a sensação perceptiva que temos é que Deus é “menos” Deus em mim, como que se tornou alguém distante, quase inexistente.

À medida que isto ocorre, há menos vontade de estar com ele. Quanto menos estamos com Deus, ele mesmo é menos presença em mim.

E aqui e agora surge o seguinte fenômeno: à medida que Deus é “menos” Deus, eu sou mais “eu” em mim, para mim, aumentando o amor próprio, ou seja, tornam-se mais presentes em mim os aspectos negativos do “homem velho”, os mil filhos do “eu” – vaidade, busca de si mesmo, ressentimento, lacunas afetivas, rivalidades, tristezas, manias de grandeza, necessidade de auto-compaixão, mendigar consolo...

Em outras palavras: o vazio de Deus vai deixando em mim, instintivamente tento recolocá-lo, pela via da compensação, com as satisfações do “eu”. Como conseqüência, aparecem, em minha relação com os outros, armadilhas, discórdias, invejas, desconfianças, inimizades, que também são filhas do “eu”.

Na medida que isto ocorre, naturalmente não há vontade de estar perto de Deus; a oração já não tem sentido porque temos a impressão de estarmos soltando palavras no vazio, de não termos interlocutor; em suma: não sabemos o que fazer com Deus.

Para este momento, tudo vai se decantando: morto o sentido de Deus, morre o sentido de Deus, morre a alegria de viver, chegando-se até a perder o encanto pela vida. Estamos no fundo do poço.”

(Cap. 8 – No Fundo do Poço, do livro “Transfiguração” de Inácio Larranãga – Ed. Paulinas)

23.10.07





Tropa de Elite

Quando me convidaram para participar do Blog da PJ eu propus que iria sempre colocar as coisas do cotidiano que me impressionam e que me provocam e ter um juízo da nossa experiência sobre elas.

Por isso, desde que vi o filme "Tropa de Elite", tenho me sentido provocado a escrever algo aqui. Acima de tudo porque fiquei pensando naquelas cenas, pensando que, por maior que pudesse ser a ficção, aquilo era inspirado na nossa realidade carioca.

E que, ao sair do cinema, ao escutar amigos, ao ler o que a mídia diz questiono muitos dos juízos que tem saído desse filme, e ao receber um palfleto do Centro Cutural Fato & Presença, resolvi postá-lo. É um juízo muito mais claro do que qualquer coisa que eu pudesse contribuir aqui.

Realidade ou Ficção?

O filme que está na boca do povo gera em nós uma pergunta: afinal, Tropa de Elite nos apresenta a realidade ou se trata da mais pura ficção? Propor uma resposta a esse questionamento e aos sentimentos paradoxais gerados no público é, antes de tudo, uma caridade.

Enquanto realidade, vivemos numa metrópole sitiada pela violência: ora dos marginais, ora da polícia; ou melhor, essa violência não se alterna, porque elas se dão numa relação de complementaridade. Mas a realidade não é o que se apresenta em Tropa de Elite. Ela é muito mais! Portanto, a obra é uma ficção. Porém, enquanto ficção, ela só pode surgir da realidade. Adélia Prado já nos iluminou quando afirmara que o poeta que ampliamos para todo e qualquer artista – só tem a realidade para, a partir, dela criar.

Uma coisa é certa: Tropa de Elite nos faz tremer! Porque o filme nos coloca dentro da guerra que muitas vezes ouvimos de nossas casas. Numa guerra, é matar ou morrer. É como se, naquele contexto, não houvesse espaço para a positividade, para a verdade, para a justiça, para a felicidade – todos esses são desejos humanos inextirpáveis aos quais nenhuma violência pode ser resposta.

A genialidade do roteiro, entretanto, não está nas cenas que ridicularizam uma polícia que é refém da falta de uma política de segurança que proteja o cidadão. É doloroso ouvir as risadas da platéia que parece não perceber o drama do qual ela mesma é parte. A genialidade que nos faz passar horas tentando clarificar o que está sendo revelado ali também não está nas cenas de tortura – marginal ou policial, não faz diferença – que nos leva da náusea à perplexidade: onde se esconde o humano que existe nessas pessoas-personagens classificadas como humanas?

A genialidade está, certamente, no chamado de atenção, consciente ou não, de uma emergência educativa. Portanto, a genialidade está na opção por colocar o enredo se desenvolvendo a partir de um espaço universitário – terminalidade da ação educativa institucionalizada. Dessa maneira, sutilmente, o roteiro nos revela a absoluta falta de uma proposta educativa totalizante para toda e qualquer pessoa.

Muito ou pouco, na ficção ou na realidade, cada pessoa-personagem, nasce de uma mãe, teve ou tem um pai. Durante toda a sua existência, mesmo que tenha nascido e crescido na rua, como muitas das crianças que vemos pelas calçadas da vida, acontece uma trama de encontros, muitas vezes inexplicáveis, na vida de cada um. Hoje o acesso à escola básica é universal e aumenta cada vez mais o número de pessoas que chegam à universidade. Por que, então, não raro, sentimos falta de crianças, jovens e, principalmente, de adultos educados? Simplesmente porque não existe, em nenhum dos níveis educativos, uma proposta, uma hipótese unitária que eduque o coração da pessoa.

Coração, aqui, não é entendido, apenas, como lugar do sentimento ou do afeto, mas, sobretudo, o coração é uma abertura de olhar à totalidade do real. O coração de que falamos é o centro do humano; o motor da vida. Nem as famílias (aliás, que famílias?) nem as diferentes instâncias educativas da sociedade organizada (escolas, universidades) educam a essa abertura. Mas o coração do homem, que é desejo de Infinito, continua ali a gritar por um sentido, por um significado capaz de preencher a falta que, estruturalmente, a pessoa carrega consigo.

“De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a si mesmo?” No fundo, essa é a pergunta que, por exemplo, o capitão Nascimento, inconscientemente, se coloca diante da beleza que se impõe – o nascimento de uma criança; de seu filho. A mesma pergunta não se faz o marginal Baiano ao abraçar o filho antes da tentativa de fuga. Tentativa essa de adiar, por um tempo fugaz, o seu assassinato inevitável. Pergunta que também não se faz nenhum dos jovens bem nascidos que marcham pela paz a partir da universidade, após o assassinato, igualmente inevitável, daqueles que tinham “consciência social”.

Pergunta essa através da qual os adultos, dos quais a infância e a juventude tanto carecem,– conforme testemunhou um jovem de 16 anos, estudante de um colégio de classe média do Rio de Janeiro –, precisam se deixar provocar e enfrentar até o fundo. Do contrário, a pergunta do capitão Nascimento continuará ressoando em nossos ouvidos: “Quantas crianças e jovens terão de morrer para você continuar a fumar a sua maconha?”

Isso pode abrir uma outra discussão que é a da descriminalização das drogas. Principalmente, após as revelações que uma pesquisa científica nos faz acerca dos “benefícios terapêuticos da maconha”. Mas esse não é o problema! O problema é enfrentar a pergunta: O que, enfim, pode preencher o coração do homem? Sem uma proposta educativa que tenha essa questão como ponto fundante, podemos organizar o bloco e colocá-lo na rua cantando: “Tropa de Elite/ Osso duro de roer/ Pega um, pega geral/ Também vai pegar você!”

Centro Cultural Fato & Presença