Tropa de Elite
Quando me convidaram para participar do Blog da PJ eu propus que iria sempre colocar as coisas do cotidiano que me impressionam e que me provocam e ter um juízo da nossa experiência sobre elas.Por isso, desde que vi o filme "Tropa de Elite", tenho me sentido provocado a escrever algo aqui. Acima de tudo porque fiquei pensando naquelas cenas, pensando que, por maior que pudesse ser a ficção, aquilo era inspirado na nossa realidade carioca.
E que, ao sair do cinema, ao escutar amigos, ao ler o que a mídia diz questiono muitos dos juízos que tem saído desse filme, e ao receber um palfleto do Centro Cutural Fato & Presença, resolvi postá-lo. É um juízo muito mais claro do que qualquer coisa que eu pudesse contribuir aqui.
Realidade ou Ficção?
O filme que está na boca do povo gera em nós uma pergunta: afinal, Tropa de Elite nos apresenta a realidade ou se trata da mais pura ficção? Propor uma resposta a esse questionamento e aos sentimentos paradoxais gerados no público é, antes de tudo, uma caridade.
Enquanto realidade, vivemos numa metrópole sitiada pela violência: ora dos marginais, ora da polícia; ou melhor, essa violência não se alterna, porque elas se dão numa relação de complementaridade. Mas a realidade não é o que se apresenta em Tropa de Elite. Ela é muito mais! Portanto, a obra é uma ficção. Porém, enquanto ficção, ela só pode surgir da realidade. Adélia Prado já nos iluminou quando afirmara que o poeta que ampliamos para todo e qualquer artista – só tem a realidade para, a partir, dela criar.
Uma coisa é certa: Tropa de Elite nos faz tremer! Porque o filme nos coloca dentro da guerra que muitas vezes ouvimos de nossas casas. Numa guerra, é matar ou morrer. É como se, naquele contexto, não houvesse espaço para a positividade, para a verdade, para a justiça, para a felicidade – todos esses são desejos humanos inextirpáveis aos quais nenhuma violência pode ser resposta.
A genialidade do roteiro, entretanto, não está nas cenas que ridicularizam uma polícia que é refém da falta de uma política de segurança que proteja o cidadão. É doloroso ouvir as risadas da platéia que parece não perceber o drama do qual ela mesma é parte. A genialidade que nos faz passar horas tentando clarificar o que está sendo revelado ali também não está nas cenas de tortura – marginal ou policial, não faz diferença – que nos leva da náusea à perplexidade: onde se esconde o humano que existe nessas pessoas-personagens classificadas como humanas?
A genialidade está, certamente, no chamado de atenção, consciente ou não, de uma emergência educativa. Portanto, a genialidade está na opção por colocar o enredo se desenvolvendo a partir de um espaço universitário – terminalidade da ação educativa institucionalizada. Dessa maneira, sutilmente, o roteiro nos revela a absoluta falta de uma proposta educativa totalizante para toda e qualquer pessoa.
Muito ou pouco, na ficção ou na realidade, cada pessoa-personagem, nasce de uma mãe, teve ou tem um pai. Durante toda a sua existência, mesmo que tenha nascido e crescido na rua, como muitas das crianças que vemos pelas calçadas da vida, acontece uma trama de encontros, muitas vezes inexplicáveis, na vida de cada um. Hoje o acesso à escola básica é universal e aumenta cada vez mais o número de pessoas que chegam à universidade. Por que, então, não raro, sentimos falta de crianças, jovens e, principalmente, de adultos educados? Simplesmente porque não existe, em nenhum dos níveis educativos, uma proposta, uma hipótese unitária que eduque o coração da pessoa.
Coração, aqui, não é entendido, apenas, como lugar do sentimento ou do afeto, mas, sobretudo, o coração é uma abertura de olhar à totalidade do real. O coração de que falamos é o centro do humano; o motor da vida. Nem as famílias (aliás, que famílias?) nem as diferentes instâncias educativas da sociedade organizada (escolas, universidades) educam a essa abertura. Mas o coração do homem, que é desejo de Infinito, continua ali a gritar por um sentido, por um significado capaz de preencher a falta que, estruturalmente, a pessoa carrega consigo.
“De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a si mesmo?” No fundo, essa é a pergunta que, por exemplo, o capitão Nascimento, inconscientemente, se coloca diante da beleza que se impõe – o nascimento de uma criança; de seu filho. A mesma pergunta não se faz o marginal Baiano ao abraçar o filho antes da tentativa de fuga. Tentativa essa de adiar, por um tempo fugaz, o seu assassinato inevitável. Pergunta que também não se faz nenhum dos jovens bem nascidos que marcham pela paz a partir da universidade, após o assassinato, igualmente inevitável, daqueles que tinham “consciência social”.
Pergunta essa através da qual os adultos, dos quais a infância e a juventude tanto carecem,– conforme testemunhou um jovem de 16 anos, estudante de um colégio de classe média do Rio de Janeiro –, precisam se deixar provocar e enfrentar até o fundo. Do contrário, a pergunta do capitão Nascimento continuará ressoando em nossos ouvidos: “Quantas crianças e jovens terão de morrer para você continuar a fumar a sua maconha?”
Isso pode abrir uma outra discussão que é a da descriminalização das drogas. Principalmente, após as revelações que uma pesquisa científica nos faz acerca dos “benefícios terapêuticos da maconha”. Mas esse não é o problema! O problema é enfrentar a pergunta: O que, enfim, pode preencher o coração do homem? Sem uma proposta educativa que tenha essa questão como ponto fundante, podemos organizar o bloco e colocá-lo na rua cantando: “Tropa de Elite/ Osso duro de roer/ Pega um, pega geral/ Também vai pegar você!”
Enquanto realidade, vivemos numa metrópole sitiada pela violência: ora dos marginais, ora da polícia; ou melhor, essa violência não se alterna, porque elas se dão numa relação de complementaridade. Mas a realidade não é o que se apresenta em Tropa de Elite. Ela é muito mais! Portanto, a obra é uma ficção. Porém, enquanto ficção, ela só pode surgir da realidade. Adélia Prado já nos iluminou quando afirmara que o poeta que ampliamos para todo e qualquer artista – só tem a realidade para, a partir, dela criar.
Uma coisa é certa: Tropa de Elite nos faz tremer! Porque o filme nos coloca dentro da guerra que muitas vezes ouvimos de nossas casas. Numa guerra, é matar ou morrer. É como se, naquele contexto, não houvesse espaço para a positividade, para a verdade, para a justiça, para a felicidade – todos esses são desejos humanos inextirpáveis aos quais nenhuma violência pode ser resposta.
A genialidade do roteiro, entretanto, não está nas cenas que ridicularizam uma polícia que é refém da falta de uma política de segurança que proteja o cidadão. É doloroso ouvir as risadas da platéia que parece não perceber o drama do qual ela mesma é parte. A genialidade que nos faz passar horas tentando clarificar o que está sendo revelado ali também não está nas cenas de tortura – marginal ou policial, não faz diferença – que nos leva da náusea à perplexidade: onde se esconde o humano que existe nessas pessoas-personagens classificadas como humanas?
A genialidade está, certamente, no chamado de atenção, consciente ou não, de uma emergência educativa. Portanto, a genialidade está na opção por colocar o enredo se desenvolvendo a partir de um espaço universitário – terminalidade da ação educativa institucionalizada. Dessa maneira, sutilmente, o roteiro nos revela a absoluta falta de uma proposta educativa totalizante para toda e qualquer pessoa.
Muito ou pouco, na ficção ou na realidade, cada pessoa-personagem, nasce de uma mãe, teve ou tem um pai. Durante toda a sua existência, mesmo que tenha nascido e crescido na rua, como muitas das crianças que vemos pelas calçadas da vida, acontece uma trama de encontros, muitas vezes inexplicáveis, na vida de cada um. Hoje o acesso à escola básica é universal e aumenta cada vez mais o número de pessoas que chegam à universidade. Por que, então, não raro, sentimos falta de crianças, jovens e, principalmente, de adultos educados? Simplesmente porque não existe, em nenhum dos níveis educativos, uma proposta, uma hipótese unitária que eduque o coração da pessoa.
Coração, aqui, não é entendido, apenas, como lugar do sentimento ou do afeto, mas, sobretudo, o coração é uma abertura de olhar à totalidade do real. O coração de que falamos é o centro do humano; o motor da vida. Nem as famílias (aliás, que famílias?) nem as diferentes instâncias educativas da sociedade organizada (escolas, universidades) educam a essa abertura. Mas o coração do homem, que é desejo de Infinito, continua ali a gritar por um sentido, por um significado capaz de preencher a falta que, estruturalmente, a pessoa carrega consigo.
“De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se, depois, perde a si mesmo?” No fundo, essa é a pergunta que, por exemplo, o capitão Nascimento, inconscientemente, se coloca diante da beleza que se impõe – o nascimento de uma criança; de seu filho. A mesma pergunta não se faz o marginal Baiano ao abraçar o filho antes da tentativa de fuga. Tentativa essa de adiar, por um tempo fugaz, o seu assassinato inevitável. Pergunta que também não se faz nenhum dos jovens bem nascidos que marcham pela paz a partir da universidade, após o assassinato, igualmente inevitável, daqueles que tinham “consciência social”.
Pergunta essa através da qual os adultos, dos quais a infância e a juventude tanto carecem,– conforme testemunhou um jovem de 16 anos, estudante de um colégio de classe média do Rio de Janeiro –, precisam se deixar provocar e enfrentar até o fundo. Do contrário, a pergunta do capitão Nascimento continuará ressoando em nossos ouvidos: “Quantas crianças e jovens terão de morrer para você continuar a fumar a sua maconha?”
Isso pode abrir uma outra discussão que é a da descriminalização das drogas. Principalmente, após as revelações que uma pesquisa científica nos faz acerca dos “benefícios terapêuticos da maconha”. Mas esse não é o problema! O problema é enfrentar a pergunta: O que, enfim, pode preencher o coração do homem? Sem uma proposta educativa que tenha essa questão como ponto fundante, podemos organizar o bloco e colocá-lo na rua cantando: “Tropa de Elite/ Osso duro de roer/ Pega um, pega geral/ Também vai pegar você!”
Centro Cultural Fato & Presença

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